Vampiro no cinema
O lado sombrio, os componentes de sexo e poder do personagem Drácula inspiraram livros e filmes como Entrevista com o Vampiro, estrelado por Tom Cruise e Antonio Banderas.
Vlad III Drácula é um herói romeno. Como príncipe da Valáquia, uma das principais regiões que hoje formam a Romênia, situada próxima da fronteira com a Hungria, ele combateu os turcos otomanos, invasores de seu território. Não foi o único da família naqueles tempos inquietos. Seu pai, Vlad II, ganhou o apelido Dracul (dragão, em romeno), por pertencer à Ordem do Dragão, criada pelo Sacro Império Romano-Germânico para combater o avanço islâmico na Europa.
O herói cruel
Com a morte do pai, Vlad III adotou o nome Drácula (filho do dragão, ou filho do diabo, em romeno) e foi à guerra, ora contra os turcos, ora contra os húngaros. Entre vitórias e derrotas, seguidas várias vezes de exílios, teve três reinados - o mais longo de 1456 a 1462, após os otomanos tomarem Constantinopla, em 1452, liquidando o Império Bizantino, ou Romano do Oriente.
Famoso pela crueldade com os inimigos, Drácula era mais conhecido por Vlad Tepes, que em romeno quer dizer Vlad, o Empalador. Uma de suas manias era executar quem fosse vítima de seu desagrado, amarrando cada uma de suas pernas a um cavalo. À medida que eles se afastavam, uma estaca de madeira enfiada no ânus da vítima entrava pelo corpo, passando pelo intestino até chegar ao coração e sair pela boca. Outro de seus "passatempos" era pendurar pessoas sobre estacas na altura do peito ou da barriga, e distribuí-las pelo campo em formações geométricas. Não poupava ninguém: homens, mulheres e crianças eram empaladas, enquanto Drácula assistia a tudo com enorme prazer.
Estima-se que tenha mandado executar mais de 40 mil pessoas. Sua morte, como não poderia deixar de ser, também foi cruel. Drácula morreu em combate contra os turcos, perto de Bucareste, em 1476. Não se sabe quem o matou, se o exército inimigo ou seus próprios soldados, fartos de tanta crueldade. Seja como for, Drácula foi decapitado e sua cabeça, pendurada em uma estaca, foi enviada ao sultão, em Constantinopla, como prova da morte do terrível Empalador.
O corpo do príncipe foi enterrado em um monastério de Snagov, próximo de Bucareste. Em 1931, quando os arqueólogos escavaram o túmulo, não encontraram nada, apenas ossos de animais, o que contribuiu para o mistério.
Morcegos levam a fama
Das cerca de mil espécies de morcegos, apenas três são hematófagas, ou seja, alimentam-se de sangue (Desmodus rotundus, Diaemus youngi e Diphylla ecaudata). Elas só existem na América Latina - especialmente no Brasil. Esses vampiros são pequenos, com cerca de 8 cm de comprimento e 30 gramas de peso. Bebem o sangue de vacas, porcos e outros animais, fazendo uma pequena incisão com os dentes na pele. Uma enzima anticoagulante na saliva impede que o sangue deixe de escorrer enquanto se alimenta, explica Wilson Uieda, professor da Unesp de Botucatu. Morcegos vampiros transmitem raiva, mas apenas quando estão doentes. Ataques a humanos são raros e só quando se sentem ameaçados.
Tirano que bebia sangue
Foram tantas as atrocidades do príncipe que ele tornou-se uma lenda, imortalizada em panfletos alemães. Eram textos ilustrados com títulos do tipo "A assustadora e real história de um tirano que bebia sangue". Mostravam Drácula como um monstro, que aterrorizou seu povo, dizimando inocentes de formas sádicas. Contrastavam com a narrativa oral romena, que passou de geração em geração, glorificando o herói que combateu o Império Otomano e lutou pela unificação de seu país. Os defensores de Drácula alegam que ele não foi mais cruel que outros tiranos da época, como Ivã, o Terrível, da Rússia.
Ainda hoje, milhares de turistas visitam locais da Transilvânia onde o príncipe teria vivido, como o castelo de Tirgoviste. Diz a lenda que ali a mulher do tirano teve um fim trágico, atirando-se no Rio Arges, por achar que seu marido havia morrido em combate contra os turcos. Não foi daquela vez. Drácula morreu sem que tivesse deixado descendentes confirmados, mas há quem defenda um parentesco com a família real inglesa. Parentesco que a rainha Elisabeth e seus descendentes nunca admitiram.
História muito diferente teve o irlandês Bram Stoker (1847-1912). Crítico de teatro e assessor do famoso ator irlandês Henry Irving, Stoker decidiu tentar a vida como escritor aos 43 anos. O primeiro livro, The Snake's Pass, de 1890, não foi bem recebido. Mas o segundo, de 1897, tornou-o mundialmente famoso. Drácula conta a história do vampiro Conde Drácula, que deixa sua terra natal, a Transilvânia, rumo à Inglaterra. Ali, o conde ataca inocentes em busca do sangue que lhe garante a vida eterna.
O livro tem a forma de um diário narrado pelos principais personagens: Jonathan Harker, que encontra o vampiro em seu castelo, sua noiva Mina, o médico John Seward e Lucy Westenra, vítima de Drácula transformada em vampira. Liderados pelo médico holandês Van Helsing, Harker e seus amigos enfrentam e matam a terrível criatura.
No roteiro, a ciência mistura-se à ficção. Van Helsing, por exemplo, submete Lucy à transfusão sanguínea, para salvá-la do vampiro. Trata-se de uma novidade na época. Quando Drácula foi escrito, a Europa experimentava as primeiras transfusões. "Stoker tinha dois irmãos médicos e conhecia os avanços da medicina de sua época", afirma Elizabeth Miller. Só não sabia das diferenças entre os grupos sanguíneos, que seriam descobertas em 1900 pelo médico austríaco Karl Landsteiner. Por isso, Van Helsing fez transfusões preocupando-se apenas com a saúde do doador, sem pensar na incompatibilidade com o tipo sanguíneo de Lucy.
Ubiratan D'Ambrosio, professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e presidente da Sociedade Brasileira de História da Matemática, é um admirador do livro. Ele nota que a obra de Stoker traz muitas das idéias emergentes no final do século 19, período de grande desenvolvimento da ciência na Europa. "Drácula apresenta uma interessante mistura da, por assim dizer, ciência oficial com a ciência paralela", afirma. "Um dos seus personagens, Van Helsing, é apresentado como filósofo e metafísico, ou seja, alguém tanto reconhecido pela academia como especialista em tratamentos obscuros."
Hoje, costuma-se dizer que alguém que trabalha muito está "dando o sangue". Para D'Ambrosio, a frase está relacionada ao vampiro de Stoker. "Drácula, para se manter vivo, precisava sugar os outros", explica. "Sua vida dependia da vida do outro, e isso pode ser lido como uma metáfora do sistema capitalista, da exploração do mais fraco pelo mais forte."
Stoker estava começando a escrever sua obra-prima quando soube das histórias sobre o cruel "filho do diabo" da Transilvânia. Dessa forma, decidiu mudar o nome do personagem principal de Wampyr para Drácula. Mas, de fato, ele não sabia quase nada da vida do príncipe. "Há quem diga que a maneira de matar o vampiro, com a estaca de madeira, refere-se à história do nobre romeno, que costumava empalar os inimigos", diz Elizabeth Miller. "Outros comentam que até mesmo a aparência do conde foi influenciada pela do príncipe, mas não há nada que comprove isso." Até mesmo a escolha da Transilvânia como terra natal do Conde Drácula teria sido coincidência. "Não há possibilidade de Stoker ter conhecido detalhes sobre a história de Vlad Drácula. Naquela época não havia praticamente nenhuma literatura disponível em inglês sobre o príncipe da Valáquia."
Astro de vários filmes
Seja como for, o personagem da literatura ganhou força no cinema. Drácula já havia aparecido em nada menos que 40 filmes, quando estreou em 1922 o hoje clássico Nosferatu, uma Sinfonia do Horror, de F. W. Murnau. Mas o filme que marcou para sempre a maneira como as pessoas imaginam o vampiro foi Drácula, de 1931, protagonizado pelo impagável ator húngaro Bela Lugosi.
Depois dessa aparição, o vampiro tornou-se personagem de comédias e histórias de ficção científica, de produções de quinta categoria a filmes premiados, como Drácula de Bram Stoker (1992), dirigido por Francis Ford Coppola, ou Entrevista com o Vampiro (1994), de Neil Jordan. "Alega-se que muitos filmes baseiam-se na obra de Stoker, mas pouco ou quase nada têm a ver com ela", diz Elizabeth Miller. Segundo ela, de todas, a versão mais fiel é Conde Drácula, com Louis Jordan, feito para TV pela BBC em 1978.
Os vampiros também se tornaram populares nos seriados de TV Buffy e Angel. No Brasil, inspiraram personagens como Bento Carneiro, o Vampiro Brasileiro, feito por Chico Anísio. As criaturas da noite estão ainda em incontáveis livros, como a bem-sucedida série da escritora americana Anne Rice com o vampiro Lestat, que deu origem ao personagem de Tom Cruise. O vampiro também dá sua cara (ou caras) em videogames, como em Drácula, a Ressurreição, cuja história continua sete anos após os acontecimentos do livro de Stoker. No jogo, para PC e PlayStation, o participante faz o papel de Jonathan Harker, que tenta salvar a mulher Mina que foi à Transilvânia e caiu novamente nas mãos do vampiro. Outro game é o RPG Vampire, The Masquerade, para PC, em que o jogador faz o papel do herói.
Vida eterna
Dracula's Homepage: Site de Elizabeth Miller, pesquisadora, com artigos sobre Vlad Tepes (o personagem de Bram Stoker), literatura gótica e outros assuntos ligados ao vampirismo.
Rotravel: Tudo o que o turista precisa saber sobre a Romênia.
The Historical Dracula: A história e as atrocidades de Vlad, o Empalador.
Dracula: O livro completo, dividido em capítulos, em inglês.
Com tantas aparições, o vampiro parece ser mesmo imortal. Para Elizabeth Miller, há diversos motivos que explicam esse interesse, como a atração pelo lado sombrio da natureza humana, a fascinação com o proibido, os componentes de sexo e poder e o desejo da vida eterna. Stoker não inventou o vampiro, presente em diversas culturas centenas de anos antes da sua obra ser publicada.
Há textos russos mencionando criaturas que se alimentavam de sangue, chamadas de "upir" (termo que se acredita tenha originado vampiro), já no século 12. O livro do escritor irlandês, no entanto, foi o mais famoso. Ele nunca saiu de circulação, foi traduzido em todas as línguas conhecidas, e pode-se dizer que, no papel, pelo menos, Drácula alcançou a vida eterna .
Gostando ou não, a onda de vampiros nos cinema está longe de acabar. A prova disso é que o filme Amanhecer – parte 2, último da saga Crepúsculo, bateu o recorde nacional de bilheteria na estreia, levando um milhão de espectadores aos cinemas de todo país no primeiro dia de exibição, nesta quinta-feira, 15. O filme foi lançado em mais de 1.200 salas e já tinha ultrapassado a marca dos 600 mil bilhetes somente na venda antecipada. Em Salvador, as salas que exibiram a produção ficaram totalmente lotadas por milhares de fãs.
Em resumo: Vampiros estão eternamente em alta!!!


